Sobre Deuses, Pássaros e Gaiolas
Rubem Alves
“Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de
rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a
Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho
religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um
Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente
emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”. Deus “ele”,
masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem
sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A
Igreja Católica não conhece a mulher. Conhece apenas a “mãe” que foi mãe sem
ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um
mar sem fim onde a vida navega? Místicos ouviram dizer que Deus é uma criança
que nos convida a brincar… Mas pode ser também que Deus seja música, como
pensaram os místicos pitagóricos.
Ter uma religião é
falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se
distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir
ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do
Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério
apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz
mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.
Se tenho uma religião
ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que
quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e
selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao
barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem
atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que
canta: “Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea
de sua garganta: mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais
leve…”
Os poetas escrevem em
transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro
para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo
exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me,
então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim: era
uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe
contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um
momento quando o pássaro dizia: “Tenho de ir”. A menina chorava porque amava o
pássaro e não queria que ele partisse. “Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda
o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência
que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os
que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade
exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar…” E partia. A
menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e
lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo:
“Agora ele será meu para sempre”. Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro,
sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais
tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina
percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava
era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro
que voou para longe. A estória termina na ausência do pássaro e a menina se
enfeitando para a sua volta.
Minha intenção, ao
escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi
publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser
usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor
seria posse eterna… Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da
qual eu arrancava a porta. Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que
linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem
entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as
gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi,
então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro
Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas. O Pássaro
Encantado: não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta
enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata
aérea de sua garganta… Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível
vê-lo em seu vôo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.
Um pássaro voando é
um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo,
controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua
inutilidade: ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu
canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço “Passa
de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em
beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu
canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E vôo com ele…
Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas
religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em
gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o
seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…
Por que prenderam o
Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na
verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que
eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do
pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam
é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em
ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado.
Assim são os martelos, as tesouras, as panelas… O que as religiões desejam é
transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A
ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que
é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é
canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do
seu poder para manipular o divino.
E é assim que as
religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus
santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são
nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos,
atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos
publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de
descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada
religião têm uma música na fala que lhes é própria…
Assim, a poesia do
canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado.
E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o
Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa
como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto.
À transformação da poesia em manipulação milagreira ? Os profetas deram o nome
de idolatria.”
Rubem Alves -
Ex-Pastor
Bacharel em Teologia, Seminário Presbiteriano de Campinas.
Mestre em Teologia, Union Theological Seminary, NY, USA.
Doutor em Filosofia ( Ph.D.), Princeton Theological Seminary, Princeton, NJ, USA.
Psicanalista pela Associação Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Mestre em Teologia, Union Theological Seminary, NY, USA.
Doutor em Filosofia ( Ph.D.), Princeton Theological Seminary, Princeton, NJ, USA.
Psicanalista pela Associação Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
